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Intervalo entre o início do parto e o desmame

Possivelmente, com a exceção de surtos de doenças catastróficas, a melhor oportunidade que temos na indústria de suínos para evitar perdas de leitões é no intervalo entre o início do parto e o desmame. As médias de desmame têm melhorado de forma constante a cada ano. No entanto, o aumento no número de desmamados é menor do que o aumento anual do total de nascidos, devido à genética e outros fatores.

Isto é decepcionante já que os processos necessários relacionados ao aumento do número de nascidos vivos e capacidade de sobrevivência dos leitões ao desmame são bem conhecidos e amplamente divulgados. Infelizmente, nós não temos abordado estas perdas com o foco necessário.

Basicamente temos aumentado a média de desmamados simplesmente contando com melhorias genéticas e outros fatores relacionados ao número total de nascidos, ao invés de reduzir as perdas de leitões pelo trabalho humano, rotineiro e profissionalizado.

É como se a cada ano, estivéssemos despejando água em um balde em um ritmo frenético sem fazer nada para consertar o buraco (mortalidade pré-desmame) que está no fundo dele. Sinto que esta é realmente uma questão de liderança (falha), e acredito que o foco exclusivamente no treinamento de pessoal para evitar as perdas será ineficaz na resolução do problema se não agregarmos um conjunto de atitudes complementares à gama enorme de conhecimento sobre as exigências e requerimento dos leitões e das matrizes. As razões que aponto para isso são:
 

 A falta de um sentido maior de urgência entre os envolvidos: Eu raramente vejo um senso de urgência em busca da resolução do problema da mortalidade pré-desmame entre os responsáveis em um sistema de produção de suínos, no qual desmamar 13 leitões é totalmente viável. Muitos líderes na indústria tornaram-se satisfeitos alcançando a média em torno de 11 e sentem-se bastante contentes ao desmamar 11,5 leitões ou um pouco mais. Esta comodidade é facilmente transmitida aos funcionários responsáveis pelo cuidado dos animais.
 

A falta de olhar para o quadro geral: Não é incomum que em sistemas com muitas granjas, que todas tenham um desmame médio inferior a 12 leitões. Entretanto, uma delas com certeza poderia ter uma média de desmame de alto padrão, ou seja, aproximando-se 13 desmamados se esta fosse uma simples questão de treinamento e gerenciamento. Mesmo você analisando apenas a média geral, você pode deduzir que o problema é sistêmico; caso contrário, certamente uma das granjas individualmente seria capaz de alcançar médias de desmame elevadas.

 

Mentalidade do menor custo: Grande parte da nossa indústria suína moderna foi construída sobre a filosofia de que ser um produtor de “menor custo” garante a sobrevivência na atividade. Esta mentalidade levou à construção de instalações que hoje em dia são inadequadas para o tamanho da fêmea suína moderna, bem como impróprias para as necessidades de leitões recém-nascidos. Essa mentalidade muitas vezes impede os gerentes de examinarem se a filosofia do menor custo é realmente eficaz. Este comportamento acaba impedindo investimentos em instalações, apesar de mudanças na tecnologia das instalações existirem. Raramente uma indústria consegue competir com concorrentes sem reais investimentos de capital.

 

Falta de envolvimento dos líderes: Tenho observado que muitos líderes agrícolas visitam as salas de parto muito rapidamente e não entendem os obstáculos que estão no caminho para permitir que os funcionários resolvam problemas relacionados ao pós-parto. Contratar “especialistas” para visitar as granjas, pedindo-lhes para se concentrar em uma área em que eles estão autorizados a trabalhar, ou seja, o treinamento de funcionários certamente auxilia na motivação e capacitação inicial mas, é necessário estar posteriormente nas instalações com maior frequência para vivenciar o problema de cada dia e encaixar as ações treinadas na execução do problema em questão.

 

A falta de pesquisa: A muitos anos se questiona sobre as gaiolas de maternidade, conforto ambiental, sobre o espaço adequado para as fêmeas e o efeito das instalações no momento do parto e nas semanas subsequentes de desenvolvimento da leitegada. Em minha opinião, este assunto tem sido negligenciado nos últimos tempos e soluções domésticas ou adaptativas são adotadas sem avaliação e pesquisa científica. Cabe maior estudo e análise sobre design e desenvolvimento nas instalações e ambiência na suinocultura.

 

Falta de funcionários comprometidos: Gerentes e proprietários muitas vezes parecem ter estabelecido que a falta de treinamento dos funcionários é o principal problema que enfrentam. Isso fez com que eles (os líderes) não prestem atenção no fato de que o engajamento dos funcionários (ou falta dele) é a principal razão para que os eles não consigam colocar em pratica todo seu potencial. Infelizmente, isso tem causado um diagnóstico errôneo ao culpar os funcionários, quando na verdade os líderes é que estão cometendo erros permitindo um sistema funcione sem a presença de funcionários devidamente comprometidos. A dificuldade de fidelizar um grupo de funcionários passa por uma série de causas, isso tenho certeza, mas com um plano de trabalho, cargos e remuneração de mercado, isso pode ser minimizado. Todos nós buscamos na vida objetivos e perspectivas de crescimento e isso precisa ser especificado individualmente e regularmente reavaliado entre o líder e seus subordinados.

 

Construa vitórias: Os responsáveis também não conseguem perceber que muitas granjas obtêm taxas abaixo da média na capacidade de sobrevivência dos leitões durante anos. A falta de uma temporada vitoriosa desmoraliza qualquer equipe de esportes, e não é diferente com uma equipe de funcionários. É responsabilidade dos líderes conquistarem uma vitória; A maneira mais eficaz de solucionar um problema motivacional é conquistando melhorias e tornando a equipe vitoriosa e confiante.

 

A falta de supervisão de 24 horas pós-parto: Cinquenta anos atrás, a indústria levava o parto e os recém-nascidos a sério e fazia isso com grande intensidade. Isto envolvia supervisão noturna, o que infelizmente, foi descartado na era da produção de suínos moderna. Curiosamente, com o advento das explorações de maiores dimensões, cuidados 24 horas por dia é viável economicamente. Infelizmente, como já observado, a prestação de cuidados 24 horas por dia é um desafio à liderança, e não um problema orçamentário (contratar trabalhadores extras).

Além de prevenir surtos de doenças, eu diria que o conserto do buraco no fundo do balde é um dos maiores problemas que o sistema de criação de suínos vem enfrentando. Como sugestão prática, proponho que todos os grandes sistemas de produção escolham uma granja-teste e, em seguida, façam o que for preciso para desmamar consistentemente 13 leitões por fêmea na granja em questão. Este ato exigiria uma abordagem “sem restrições”. E se realizada com sucesso, poderia facilmente abrir um caminho para que outras granjas sigam o exemplo, agora questionando melhor os custos a serem aceitos ou não para chegar no resultado esperado.

Por: Fernando Richter Retamal, médico veterinário e consultor técnico da Nutrifarma